terça-feira, junho 19, 2007


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Carlos Drummond de Andrade

3 comentários:

Mel de Carvalho disse...

Carlos Drummond de Andrade é sempre uma excelente escolha.

Muito grata por me visitar, seja sempre bem vinda quer à "maresia" quer à "noite".

Um abraço
Mel
www.noitedemel.blogs.sapo.pt
www.maresiademel.blogs.sapo.pt

O Sibarita disse...

Oi menina Cris! O que posso falar desse belo poema do Carlos Drummond? Ele por si só fala!

bjs
O Sibarita

Mineiras, Uai! disse...

Nossa, adoro Drummond, e este poema é emocionante demais!
Obrigada pela visita no Mineiras, e volte sempre!
Beijo
Ana
www.mineirasuai.blogspot.com