sábado, junho 02, 2007

Reciclagem de sentimentos
Jornal Estado de Minas - 22/04/2007

Preciso reciclar o meu lixo interno: separar o joio do trigo, os límpidos e transparentes filtros de amores passados que começaram bem, mas acabaram se partindo em pedaços. Preciso jogar fora os estilhaços do amor que ainda vive em mim. Varrer toda a sujeira que se acumulou ao longo do tempo.

Preciso fazer uma coleta seletiva: papéis velhos que vou guardando e que ocupam lugares esquecidos da casa, cartas, poemas, sentimentos escritos, paixões com selo de garantia vencido, encontros registrados em cadernos amarelecidos, letras quase apagadas de declarações, elogios esmaecidos, tudo o que vou guardando em pastas rotas, já rasgadas e remendadas de um lado a outro.

Vou separar também jornais guardados há mais de 20 anos, com assuntos jamais consultados, temas tão importantes que, em cada época, mereceram especial atenção, que acabaram vivendo no alto dos armários de cada casa, cuidadosamente selecionados e que, hoje, fazem parte de um arquivo morto.

São cartões de aniversário, de comemoração, convites especiais que acumulam datas por ano a fio, que fazem parte de um documentário pessoal e intransferível, que falam de mim mesma, de quem sou, dos meus amigos, dos conhecidos, de leitores tão especiais que, um dia, tiveram a coragem de escrever uma carta e endereçá-la pelo correio, colar belos selos e enviar ao destinatário, com nome, endereço e CEP.

Quantas cartas guardei, pois elas contam histórias, fazem parte do currículo. Quantas vezes já chorei ao ler poemas presenteados de madrugada, escritos em papel de pão, em guardanapos e até em rolos de papel higiênico? Mas hoje estou selecionando as melhores e piores lembranças. Acho que vou jogar tudo no aterro da minha alma, mas antes vou picar em pedacinhos, para que o meu lixo interior vá para o lugar certo.

Preciso transmutar a dor, reciclar sentimentos, colocar cada um em vidros coloridos, para não confundir o lixeiro que mora em mim. Vou enrolar os vidros mais frágeis em jornal, para que não cortem a mão e as frases mais sedutoras.

Vou limpar gavetas, retirar a poeira de velhas recordações, soprar as teias de aranha do baú das emoções, deixar o sol entrar. Vou jogar fora vidros de perfumes que marcaram época e que ainda guardo como se pudessem fazer o tempo voltar. Com almíscar, transportei-me para outras épocas bem mais felizes.

Com o capim-cheiroso, apaixonei-me perdidamente. Com o cheiro de mato, acampei. Com o perfume suntuoso da Victoria Secret, senti-me rainha. O perfume de Carolina Herrera foi o meu passaporte para outros mundos. Vidros que guardam os fluídos do amor, a energia de mulher. Com o cheirinho da erva-doce me transformei em mãe e aspergi a água benta por todo o corpo da humanidade.

Reciclando emoções, transformo papéis em textos eternos, vidros de perfumes em garrafas salva-vidas, onde está escrito: "Salve-me de mim mesma. Socorro. Sou náufraga nesse mundo".

Em minhas mudanças climáticas, sinto frio e calor ao mesmo tempo. Sou chuva e aridez. Meu termômetro sofre oscilações, chega a 40 graus de uma febre que não passa nunca. Estou quente como o sol no meu rosto, mas posso congelar na primavera em flor.

A atmosfera da minha casa é igual à do Ártico, com geleiras se quebrando no meio do mar e alterando a temperatura. Na dança louca do tempo, nem penso nas noites invernais que exigem cobertores felpudos, botas de cano longo, casacos de lã e xales enormes. Com chá de amora, aqueço-me e deito na rede dos meus sonhos. Sou urso polar a hibernar nas grutas da existência.

Meus icebergs se soltam das geleiras em uma viagem sem fim. Onde está o verão de outros dias? Reciclando sentimentos, encontrei-me. Afinal, não sou de Marte nem de Vênus. Apenas uma mulher que mergulha em seus oceanos!
Por Déa Januzzi
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1 comentário:

Carlos disse...

É isso aí!! Reciclar é importante e faz bem ao coração e à alma! Valeu!!